quinta-feira, novembro 26

Sorvete de Morango.

Pra mim seria apenas mais uma tarde de calor insuportável. Estava deitada na minha cama com todas as janelas do meu quarto abertas e o ventilador de teto ligado, na máxima potência. Minhas pernas e braços estirados sobre a colcha, a expressão de cansaço me dominava, por mais que a única coisa que tenha feito no dia tenha sido acordar e tomar mil litros de suco de uva de caixa.

Nessa situação o telefone toca. "Beleza, minha mãe me mandando ir até o fim do mundo buscar pão" foi o pensamento que instantaneamente me veio à cabeça. Mas quando atendi o telefone uma voz me surpreendeu. Não era minha mãe, muito menos minha melhor amiga, e não, também não era meu pai. Era ele - eu sei, por que ELE me ligaria? - me chamando para tomar sorvete.
Primeiro eu fiquei um tanto quanto apreensiva, fazia um tempo que não nos falávamos, e nossa última conversa foi um completo desastre. A não ser que você considere um término de namoro algo agradável. E foi, simplesmente, tenebroso. Arrepio-me só de tentar recordar... Aquela voz fria dele, sem qualquer emoção, sem remorso, sem hesitação - tão seco como um robô -, me dizendo que ele não me amava mais, que tudo o que ele achava que sentia por mim tinha sido superestimado... E eu nem me dei ao trabalho de chorar, pelo menos não na frente dele, ele já estava dentro do carro quando eu ousei levantar meu olhar dos meus tênis rasgados sobre o chão sujo do estacionamento. Sim, ele me largou no estacionamento. HÁ SEIS MESES. E desde então não me dirigiu a palavra, sequer o olhar. E, agora, seis meses depois daquela tarde de inverno, ele volta?
Onde isso é justo? Onde isso é certo? Onde estavam os escrúpulos dele?
Porque, sinceramente, eu nunca deixei de amá-lo. Eu tentei, afinal, ele me destruiu, mas não adianta... Cada novo menino que eu conheço só me faz querê-lo mais e mais. E, agora, do nada, ele me liga me chamando pra sair? E o pior, eu aceito depois de tudo que eu passei por ele? Onde isso é certo?
Bem, só sei que ele apareceu aqui meia hora depois. Eu já esperava desesperada na janela do meu quarto, vestindo a melhor roupa que eu pude achar nesse calor; minhas saias de cintura alta, uma camiseta branca, o colar com um coração torto que ele me deu em um dia dos namorados, e meu fiéis tênis vermelhos de cano alto. Quando vi aquele carro velho parar no meu portão já tinha corrido escada abaixo antes que ele buzinasse. Escancarei o portão e tentei disfarçar para que ele não achasse que estava com tudo ganho - como se ele já não soubesse disso. Falhei ao tentar ignorar a beleza dele. Como sempre, estava vestindo aqueles jeans surrados nos quais eu cansei de enfiar minhas mãos, uma camiseta branca com cheiro de roupa lavada, tênis tão surrados quanto os meus e óculos escuros pretos. O cabelo dispensava comentários, bagunçado, brilhoso, implorando que uma mão o despenteasse ainda mais. A única coisa que pude fazer foi suspirar e abraçá-lo.
Ele me levou a uma sorveteria com varanda, e, por incrível que pareça, brisa. Eu estava feliz demais para conseguir achar qualquer defeito, por mais que não existisse algum. Quando chegamos lá, ele pediu que eu esperasse na mesa, me perguntou o que eu iria querer. "Sorvete de morango" disse por entre um sorriso.
Ele voltou com um sunday, cheio de marshmellow, calda e uma enorme cereja no topo. Trazia duas colheres coladas ao pote. Eu o encarei, esperando pelo meu sorvete de morango. "O sorvete é de morango" ele disse, sem que eu precisasse falar qualquer coisa.
Ia pegando minha colher, quando ele a tomou de minha mão e pegou o sorvete pra mim. E, meu Deus, ele levou a colher até à minha boca para que eu tomasse o sorvete. Eu senti aquela sensação de moleza de novo, fechei os olhos e apreciei o momento, e fiz questão de fotografá-lo em minha mente, o guardaria pra sempre.
Ele levou a mão à minha bochecha e a acariciou, eu inclinei o rosto numa tentativa tola de fugir. Pegou meu queixo e fez com que olhasse pra ele, e eu o fiz.
Ele mantinha o olhar hipnotizante no meu, e disse: "As coisas não são as mesmas sem você. Eu não sou o mesmo. Acho que eu na verdade te subestimei. E eu tentei não voltar para você, eu imagino que tenha te machucado... Mas eu simplesmente não resisti, eu precisava... e ainda preciso de você."
Eu parei de prestar atenção nessa hora, pelo menos no que ele dizia. Observei aquela face que eu tanto adoro, aquele pescoço forte, aquelas bochechas brancas, aquela boca vermelha... Avancei por cima da mesa e fui de encontro a eles, o beijei com toda a força que eu tinha, toda a vontade, matando a saudade que eu aprisionei em mim por todos aqueles seis meses. Provei daquela boca, me aproveitei de tal, mordi, suguei... Fiz tudo aquilo que queria, tudo que me matava de vontade.
Então, quando finalmente larguei de seus lábios, ele rindo, disse que me amava e que queria muito que eu voltasse a ser dele. Eu só pude assentir, era imensa a felicidade que eu sentia naquele momento, eu era puro êxtase.
E, agora, quando penso nele, não me vem a imagem de seis meses atrás, mas sim aquele delicioso sorvete de morango.

Goodbye, Strangers.

terça-feira, novembro 24

Politicamente (in)correto.

Andei fazendo uma certa auto-analise e só percebi que sou tudo o que uma pessoa politicamente correta julgaria errado. Mas, então, só por causa disso eu sou uma má pessoa? Creio que não. Creio que ser politicamente correto é apenas mais uma alusão que o ser humano cisma em ter com a bendita perfeição, que nos torna tão imperfeitos...
Afinal, não é possível que exista alguém que não julgue, que só pense no próximo, que não fale pelas costas, que não minta, que não seja egoísta, que não goste de dormir, que não prefira deixar que os outros façam, que goste de dar lugar a velhinhos no ônibus... Sinceramente, atitudes altruístas são uma bela de uma merda, se você for pensar no seu lado.
Eu, particularmente, tenho vontade de estrangular um toda vez que me vêm com essa de "Eu não faço isso". Você pode ser contra, procurar não fazer, mas daí a não fazer? Não, não mesmo. E, agora mesmo, estou sendo hipócrita por dizer isso, porque a minha frase é "Eu não minto", mas falando sério, todo mundo mente, mesmo que sem querer, ou coisas bobas...
Mas, por outro lado, sou extremamente egoísta, perfeccionista e odeio, realmente odeio, que falem alguma coisa de mim, ou que me superem. E quem fala alguma coisa de mim, essa pessoa não estaria me julgando? É, eu acho que é isso mesmo. E volte e meia fazem mal uso das palavras, utilizando expressões que pouco condizem com o que sou. Quando me chamam de egoísta, tenho que admitir, mas quando me chamam de fútil, tenho que protestar.
E, então, o que é politicamente correto? Pra mim, todo mundo é politicamente incorreto, porque, por mais cliché que seja, é a verdade, ninguém é perfeito. E NÃO ADIANTA TENTAR SE ENFIAR ISSO GOELA ABAIXO, SABE POR QUÊ? Porque isso deixa as pessoas chatas.
Por isso, não devemos ter vergonha alguma de nossos defeitos. Buscar o melhor é sempre bom, mas existem coisas que não passam de utopias.

Goodbye, Strangers.

segunda-feira, novembro 16

Ser um vegetal deve ser chato.

Eu, sinceramente, tenho um balde de preconceito contra os vegetais. Não consigo compreender, como seres inanimados podem ser considerados seres vivos. Porque, convenhamos, um vegetal interage menos que a televisão nos dias de hoje. Fico besta vendo Dora, A Aventureira, o programa fica mudo por alguns segundos, essa é a fala de quem assiste. Certo que é pra criancinhas em desenvolvimento, mas quantas vezes você viu uma planta fazer isso?
E, falando sério, qual seria a graça de ser uma planta? Eu não imagino nenhuma. Fazer fotossíntese e depois se gabar, algo do tipo "Ei, estou salvando o planeta", mas, ah, é... plantas não falam! E muito menos pensam. Quanto a isso, eu não sei, mas plantas tem cérebro? Não, acho que não.
Então como podem estar na mesma qualificação que nós, seres humanos e animais totalmente animados como o meu gato que acha que a minha mesa de computador é um playground ou então esses mosquitos que ficam nos importunando. É claro que todos esses animais são diferentes uns dos outros, têm suas limitações. MAS DAÍ A COMPARÁ-LOS COM PLANTAS? Só porque as plantas nascem, crescem, se reproduzem e morrem. Tipo, eles nascem se alguém colocar uma semente lá, eles só crescem se alguém molhá-los, e... sinceramente, sua capacidade de reprodução é bem duvidosa, e morrer eles morrem por qualquer coisa.
Veja aquela plantinha que sua mãe insiste em comprar todo mês, sempre achando que não vai matá-la. Quando a compramos, a bichinha está linda, estonteante. Dê duas semanas para que as flores caiam, sua mãe perca a paciência e desista de regá-la e ela morra. Ou então aquele cactos que você tinha na infância e acabou matando afogado.
Seus peixes são outro exemplo. MAS OS PEIXES PELO MENOS INTERAGEM! Se você colocar vários deles num aquário, vão conviver em sociedade. COLOQUE PLANTAS JUNTAS E A DIFERENÇA SERÁ NENHUMA!
Enfim, não considero plantas seres vivos. Plantas são plantas e têm uma importância brutal para o planeta, mas quanto a viver e estar vivo... bem, aí eu discordo.

Goodbye, Strangers

sexta-feira, novembro 6

Editando-se.

Bem, antes que pensem, não eu não me editei, ainda. Pois tenho planos e muitos.
Acho que cada uma dessas pequenas alterações que fazemos em nós mesmos ao longo da vida são mais do que uma forma de demonstrar atitude, são formas de arte, de colocar o que está dentro pra fora em um desenho harmonioso, em uma frase importante, em um pequeno símbolo... São também formas de nos ilustrar, colorir, modificar.
Assim como nós costumizamos as roupas, as paredes, os cadernos, as folhas, a caligrafia, o armário, os assessórios; modificamos também aquilo que tudo isso cobre, aquilo que nos veste em tempo integral.
Gosto de pensar que tais modificações podem se tornar características marcantes e podem vir a calhar bem com você, melhor mesmo do que o original.
Então, nós saímos com o modelo de fábrica, assim do jeitinho que somos. Com o tempo, vamos ficando meio gastos, e esses detalhes podem, ou não, exigir alguns consertos. Mas, como o traje é seu, você faz o que quiser com ele.

Goodbye, Strangers.